O que você entende por Novo Nascimento? - Ezequiel Farias.

O que é o Novo Nascimento? Tal assunto é muito deturpado em nossos dias! A seguir disponibilizo uma parte do bom texto escrito pelo meu querido irmão: Ezequiel Farias, diácono da Primeira Igreja Batista Reformada em Caruaru, gentilmente enviado a mim pelo autor, o que muito agradeço. Creio que este texto poderá ajudar aos leitores do blog. Nos próximos dias estarei prosseguindo a exposição do Evangelho de João, estudando o capítulo 3, onde o assunto do Novo Nascimento também será tratado. Assim, o presente texto já é uma preliminar às próximas postagens. Leia, medite, e divulgue, e que o Senhor seja Gracioso com você e com os seus próximos! Amém!

“Estou salvo, porque aceitei Jesus como meu Salvador”. Esta frase é por demais conhecida do mundo evangélico dos nossos dias. Todavia, a grande maioria desconhece que tal expressão diz respeito à doutrina humanista do Profº holandês James Arminius – que defende uma decisão pessoal do homem no que diz respeito a sua salvação eterna –, que não encontrou respaldo entre os reformadores do século XVI, por também não encontrar respaldo na Palavra de Deus. Aliás, como poderia o Deus Criador e Governador de tudo e todos (Sl 103.19; Dn 4.35) depender de uma decisão de sua insignificante criatura (Jó 22.2,3; 25.2-6; Sl 8.4) para, somente assim, atuar na sua vida? Que tipo de arrependimento esta criatura sofreria ao saber que somente por sua vontade própria é que o Seu Criador teria a permissão para salvá-la? Certamente, queridos, a frase acima referida não representa o que o santo Evangelho nos ensina como obra do Espírito Santo no coração humano (Ez 36.25-27; Jo 3.5-8), antes, se harmoniza mais com a idéia esotérica do pensamento positivo – aliada à presunção humana –, a qual conseguiu adentrar a Igreja do Senhor nos últimos dois séculos. 

Entretanto, a idéia de se decidir o que pertence unicamente ao Senhor não surgiu há poucos séculos, mas remonta à Queda, quando Satanás disse ao homem que ele poderia usurpar a prerrogativa divina, simplesmente tomando a decisão de comer do fruto proibido (Gn 3.1-5). Ou seja, a mesma investida que Satanás ousou contra Deus (Is 14.13,14), repassou ao homem, e este caiu – e continua caindo.

Os protestantes de hoje afirmam ensinar a Palavra de Deus, todavia, a grande maioria não consegue aperceber, como os protestantes do passado, que sendo Deus Sublime, Eterno, Senhor, Justo, infinitamente Sábio, infinitamente Poderoso e absolutamente Soberano jamais se relacionaria com o homem como numa relação entre homens, em que todas as partes opinam; jamais deixaria à mercê de sua criatura decaída (Rm 5.12), podre (Gn 6.5; Rm 3.9-18), infiel (Dt 31.16 e 27; Rm 7.18,19) a decisão de morar eternamente com a Vida, o Santo, o Fiel.

Nenhum dos profetas do Senhor, nem muito menos O Profeta, ensinou que a salvação dependia de uma decisão humana e que fosse efetivada por uma simples afirmação verbal e/ou mental. Por saber muito obvia e logicamente disto foi que o apóstolo Paulo dirigiu estas palavras à igreja em Corinto: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que estais reprovados” (II Co 13.5). É certo que no v.6 Paulo mostra que o crente não é reprovado, ou seja, não perde a salvação. Mas, por que no v.5 ele começa exortando à igreja a que se examine se está em Cristo ou reprovada? Obviamente, queridos, porque a salvação pertence (somente) a Deus (Jn 2.9c), não a nós (também). É somente Ele quem pode vivificar o homem morto (Ef 2.1), fazendo-o crer. Por outro lado, somente a nossa identificação com Cristo é que nos dá a segurança que fomos verdadeiramente convertidos, que a semente do evangelho foi plantada no nosso coração (I Jo 3.9), que Cristo nos libertou da escravidão do pecado (Rm 6.6) e nos transportou para o reino do Filho do Seu amor (Cl 1.13), que somos trigo e não joio – pois é pelos frutos que se conhece a árvore (Mt 7.16-20), e que nada nos separará do amor de Deus, que está nos méritos de Cristo (Rm 8.32-39)! E como confirmar este chamado senão através da espada do Espírito (Hb 4.11,12; I Jo 3.24), instrumento pelo qual Ele nos chamou (Ef 1.13; II Tess 2.14)? É assim que o Espírito comunica ao nosso espírito que somos filhos de Deus! Essa exortação de Paulo à Igreja é claramente amparada pelo apóstolo Pedro, quando escreve: “Por isso, irmãos, procurai com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição” (II Pd 1.10a). Se, no entanto, o homem que se diz salvo, não apresenta frutos do novo nascimento, nem se examina a si (para confirmação de sua chamada eficaz), como pode dizer que está salvo? Você já considerou a possibilidade, então, de nunca ter nascido de novo? Consegue perceber, agora, à luz da Palavra, que isso é perfeitamente possível?

Mas, por não compreender o ensino bíblico, o Arminianismo estabelece a sua própria doutrina, dizendo que procurar confirmar o chamado do Espírito é duvidar da obra de Deus. E, assim, julga a obra inexplicável do Novo Nascimento (Jo 3.8) como mera obra do crer humano; ou substitui a maravilhosa, inaudita e soberana obra da Graça de Deus (At 16.14b) por uma simples decisão, ou determinação do próprio homem.

A grande maioria dos protestantes de hoje opinariam que crer ou tomar uma decisão não se constitui em obra. Ensinavam, todavia, os protestantes do passado que tanto a prática visível como a prática do pensamento (mente, coração) são obras. E não é esta última concepção que o Mestre Jesus nos ensina ao afirmar que o pecado não só se constitui na pratica do adultério ou do homicídio, mas também o intentar do coração nos faz transgressores destes mandamentos? E isso não equivale à transgressão do mandamento que é praticado pela obra da mente (Ex 20.17)? Ora, se através de uma simples decisão pessoal o homem viesse a nascer de novo, os “crentes” de Mt 7.22,23 não teriam sido condenados! Porquanto, ao se referir Paulo ao crer de Abraão (Rm 4.3-5), não fala de uma intenção ou vontade própria, mas na obra de fé que é originada e consumada por Deus mesmo (Ef 2.8b; At 3.16; Hb 12.2). Por isso Jesus também ensinar que o crer para a salvação é uma obra exclusiva de Deus, ao responder aos judeus que queriam fazer obras para serem salvos, dizendo: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que Ele enviou” (Jo 6.28,29).

O Arminianismo consegue manter a maioria em torno de si exatamente em razão de defender a doutrina do Livre-arbítrio do homem (ou, satisfação do ego), e pelo não estímulo ao estudo aprofundado das Escrituras, ensinando ao povo a trabalhar versos bíblicos que aparentemente dão à impressão que o próprio homem é quem decide para onde vai após a sua morte. Todavia, a doutrina do Livre-arbítrio nunca foi ensinada pelos reformadores, obviamente (como aqui se pode constatar) por não ter a menor base bíblica. O que os reformadores ensinavam do livre-arbítrio se referia a Deus, nunca ao homem, pois este não pode exercer nada sem que seja julgado (arbitrado) por DEUS. Este sim é livre para agir sem que ninguém o possa julgar, pois “não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?”. Se o homem tem livre-arbítrio, por que não decide parar de pecar? Respondo, ou melhor, Jesus mesmo responde: “todo o que comete pecado é escravo do pecado”! Isto significa dizer que o termo livre-arbítrio somente tem sentido quando usado para se referir Àquele que arbitra todas as coisas segundo a sua própria vontade, inclusive no que se refere à salvação do homem, que acontece por atos soberanos conforme decretados na eternidade em Cristo Jesus (Rm 8.28-30/II Tm 1.9), libertando-o de sua escravidão.

Portanto, ao buscarmos a Palavra de Deus, sendo iluminados pelo Espírito Santo, não é esse ensino diabólico (“livre-arbítrio”) que das Sagradas letras aprendemos. Se não, constatemos: Enquanto a Bíblia diz em Dt 30.19 que o povo escolhesse a Vida, Jo 17.2 diz que Deus já escolheu um povo para a Vida; enquanto Jl 2.12 exorta-nos a nos convertermos ao Senhor de todo o nosso coração, Dt 30.6 diz que é Deus quem nos dá esse coração contrito; enquanto Dt 30.2 diz: “... se deres ouvido à Sua voz...”, Dt 29.4 diz: “... o Senhor não vos deu ouvidos para ouvir...”; enquanto Sl 95.7b,8 diz que não devemos endurecer o coração, Is 63.17 diz que é Deus mesmo quem o endurece; enquanto Jr 35.15 ordena ao povo que se converta, Jr 31.18b diz: “... converte-me, e serei convertido, porque Tu és o Senhor, meu Deus”; enquanto Is 55.6 diz: “Buscai ao Senhor...”, Rm 3.11b diz: “Não há quem busque a Deus”; enquanto Mt 11.28 diz: “Vinde a mim todos vós que estais cansados ...”, Jo 6.37a diz: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim”; enquanto Mc 1.15 diz: “... arrependei-vos...”, At 11.18 diz que é Deus quem concede o arrependimento; enquanto Jo 14.6 diz “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim”, Jo 6.44 diz: “Ninguém vem a mim se o Pai não o trouxer”. (Sabemos que há ainda outros textos que tanto apoiariam a interpretação reformada como, aparentemente, a arminiana. Por isso mesmo é de fundamental importância a análise do texto, se necessário, o contexto, e se ainda for insuficiente, os originais, para que se possa compreender qual a interpretação real de cada passagem em particular – que obviamente não poderá se contrapor a nenhuma outra.)

Entretanto, o que podemos depreender dos textos acima comparados é que Deus exige do homem a responsabilidade pela transgressão de Sua Lei, chamando-o à reconciliação com o Seu Criador, mas, em razão do seu estado espiritual, igualmente informa que ao homem isto é impossível. Por isso mesmo o apóstolo Paulo em II Co 5.18-21 nos falar claramente que é Deus quem nos reconcilia com Ele mesmo. Ou seja, enquanto entre as pessoas é notório e de bom alvitre o reconciliar-nos com aqueles a quem ferimos, com relação a Deus a reconciliação acontece de forma inversa – de uma vez que a parte que O feriu é incapaz (pois está morta). Deus, então, é quem toma a iniciativa de fazê-la ter paz com Ele (vivificando-a): “Bem-aventurado aquele a quem escolhes e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios” (Sl 65.5). Por isso é que a nossa suficiência vem do Senhor (I Cr 29.14,17 e 18; I Co 15.10), e é assim que o novo nascimento não é da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1.13), pois é obra unicamente do Espírito (Jo 3.6 e 8) – e é isso que significa ser salvo pela Graça! Por conseguinte, a Escritura anula completamente o entendimento de que Deus só salva quando o homem quer, após assimilar o evangelho apenas com o intelecto. Ora, se a fé vem pelo ouvir a Palavra (Rm 10.17), mas não é outorgada a todos (II Tess 3.2) – por isso mesmo que nem todos que ouvem a Palavra crêem (Rm 10.16; Hb 4.2) –, é lógico, é obvio, é mais que bíblico que a salvação é dada a quem Jesus quer (Jo 5.21; At 16.13,14). E quem são esses senão os que Deus de antemão elegeu para esta graça (Tt 1.1)?: “Assim como lhe conferisse autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste”, “E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (Jo 17.2; At 13.48b). São esses que ouvem a voz do Pastor (Jo 10.16), que aprendem do Pai (Jo 6.45) e que seguem a Cristo (Jo 10.27) – e é isso que significa vir a Jesus! Outros, porém, nunca poderão ouvir (Jo 8.43 e 47; At 28.25-28), por não serem ovelhas do Senhor (Jo 10.26).

Portanto, quando Paulo diz: “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”, não esta falando nem de uma simples confissão verbal, nem de um crer fruto de raciocínios humanos, pois estaria se contradizendo (Rm 9.16; I Co 1.18-25; 2.13,14). Igualmente, quando diz que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”, não está, obviamente, considerando o ato mecânico da articulação da palavra em forma de clamor, mas a obra sobrenatural do Espírito Santo através da Palavra que origina tal reação por parte do pecador. É exatamente isso que já revelava o Senhor ao seu povo desde a 1ª aliança: “Apresentar-se-á voluntariamente o teu povo, no dia do teu poder” (Sl 110.3). Ora, porventura não foi a obra divina que levou os que ouviam a pregação a perguntarem, ansiosamente: “Que faremos, irmãos?” (At 2.37)? Portanto, conforme os versos de 14 a 17 do mesmo contexto (Romanos 10), somente terão essa atitude aqueles que forem alcançados pela fé, que é segundo a pregação da Verdade. Igualmente, desde muito antes de nós o Senhor já revelava isto: “Perto está o Senhor de todos os que O invocam, de todos os que o invocam em verdade” (Sl 145.18)! Somente estes – e não poderia ser diferente – tendo sido vivificados pelo Espírito Santo (II Tess 2.13b; Tt 3.5), regenerados pela Palavra (I Pd 1.23), recebido o arrependimento de pecados (At 5.31; Rm 2.4), reconciliados por Deus (II Co 5.19), chamados irresistivelmente pela sua graça (Ez 36.25-27; II Tm 1.9), recebido da Sabedoria para compreenderem o evangelho (Mt 13.23; I Co 2.7-12) crêem com o coração, e com a boca testemunham de Cristo (At 2.40; 9.28; Ap 1.9): “Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos” (II Co 4.13).

Sabemos que Deus geral e normalmente chama o pecador por meio da pregação audível, que se lhes torna compreensível, embora a regeneração seja um ato do Espírito no espírito humano, como ensinou Jesus (Jo 1.13; 3.5-8), então, independente de uma vontade pessoal, como já visto. Todavia, há casos em que Deus dispensa esta forma de chamar os seus, em razão de lhes faltar as condições normais para o ouvir e o compreender, sendo chamados, porém, nas mesmas condições, do ponto de vista espiritual, como se lhes não faltasse nenhuma faculdade natural e humana, presente nos demais homens. Estou falando de todos os inaptos mentais, bem como dos surdos cegos, ou ainda, de outros que se enquadram nessa situação. O profeta Isaías afirma que nem mesmo estes errarão o Caminho Santo (Is 35.8). Mas, também acresço a esta classe, as crianças, que ainda não possuem as condições para a compreensão. Neste caso, a Palavra de Deus nos dá como exemplo o profeta João Batista, que já nasceu salvo (ou, cheio do Espírito Santo). E como seria isto possível, senão que o Espírito Santo opera com a mesma Água (a Palavra de Deus) no coração desses eleitos que, em virtude de sua natureza pecadora (Sl 51.5; 58.3-5), carecem da mesma Graça do Novo Nascimento, como àqueles que possuem as suas faculdades normais?
Em razão de todas estas verdades aqui expostas, constatamos que enquanto o caminho do pensamento humano é pelas suas próprias obras, o caminho do evangelho de Cristo é 100% pela Graça; enquanto todas as “religiões” ensinam que o homem tem de fazer alguma cousa para ser salvo, o evangelho eterno nos diz: “a minha graça te basta”; enquanto o mundo leva em conta o número, a Igreja de Cristo crê na expiação particular, esperando no Senhor aqueles que Ele mesmo acrescenta (Ez 34.11; At 2.47b).

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