Adão e Cristo - Fabiano Rocha*.

Assim como em Adão todos morreram, também em Cristo muitos obterão a vida. Foi em Adão, nosso representante federal, que pecamos. Ele foi a porta pela qual o pecado entrou no mundo. E com o pecado, o próprio pagamento que a transgressão merece, ou seja, a morte. Porém, sendo Cristo o representante perfeito dos que crêem, colocou-os dentro da esfera da vida e da graça. É através do segundo Adão que o novo homem é feito e criado. A nova humanidade é constituída em Cristo Jesus. São duas representações federais que a Bíblia apresenta. São duas comunidades que se caracterizam não somente por cabeças diferentes , mas também por características diferentes. Esse conceito de federação e solidariedade é extremamente familiar em toda a Bíblia. A Palavra de Deus sempre mostra através de narrativas e relatos bíblicos que os homens nunca são ilhas. Mas há sempre elos fortes e marcantes como os descritos através de grandes famílias, tribos, nações e raças. São inúmeras as porções e variados significados sobre a solidariedade humana na Palavra de Deus. Isso pode ser claramente percebido no relato da desobediência de Acã, que furtou objetos valiosos em Jericó, contrariando a ordem de Deus, o que fez com que a ira do Senhor se acendesse contra todo o Israel. Acã havia pecado e colocado toda a nação na mesma condição. O fato que se sucedeu após a desobediência desse homem foi a grande derrota imposta ao povo de Deus contra Ai, isso porque a transgressão de Acã teve fortes implicações sobre toda nação. O que ele fez afetou a condição de todo o povo. Novamente percebemos que ele não era um indivíduo solitário, responsável somente por si mesmo. Ele levou a nação à derrota e depois toda a família desse homem foi apedrejada em praça pública diante de todos.

É assim que a escritura descreve Adão. Ele não era um indivíduo isolado, mas um representante da própria humanidade. Adão foi constituído cabeça da raça humana por Deus. Nessa posição, suas decisões seriam nossas decisões. Elas afetariam toda a humanidade. Com isso, sua obediência seria nossa obediência, bem como sua desobediência. Suas decisões seriam representativas da sua descendência. Por isso, como conseqüência dos seus atos, houve a perda do primeiro estado do homem, como conseqüência da desobediência que cometeram. Isso foi também imputado a todos os homens: pecado, culpa e morte. Adão conduziu toda a raça humana para o abismo. A morte passou a imperar, não estando ninguém fora dessa realidade. Nem mesmo os infantes, pois esses já nascem com o pecado, com a culpa herdada.

Esse mesmo conceito de representação universal, que demonstra a condição tão desesperadora da raça humana, é usado para estabelecer a federação perfeita de Jesus Cristo com relação aos eleitos. Onde abundou o pecado transborda agora a graça. A representação não se encerrou no primeiro Adão. A história não acaba no ministério da morte, como num cortejo fúnebre. Temos o cumprimento da verdadeira representação para a qual todas apontam, ou seja, a representação perfeita de Cristo que é o segundo Adão. O primeiro era da terra, o segundo veio do céu. O primeiro era imperfeito, o segundo é perfeito, não falha. Em Cristo, o império da morte, a aflição da culpa e do pecado é desfeito dando lugar à vida, esperança e paz. Um novo homem é totalmente recriado em Cristo Jesus, em retidão e justiça. Os atos de justiça de Cristo, bem como os frutos decorrentes de sua mediação são imputados a todos aqueles por quem Cristo padeceu.

A justificação é o ato de Deus mediante o qual ele declara justos os homens culpados, gratuitamente por sua graça e mediante a fé em Cristo Jesus. Isso é feito não com base em méritos humanos ou pelas obras da lei. Mas unicamente tendo como base a justiça perfeita de Cristo. Essa é uma das verdades centrais do evangelho, é o ponto central do plano redentor de Deus. Este é o modo como Deus demonstrou sua justiça e vindicou o seu caráter. Entender corretamente a justificação é fundamental e crucial na vida cristã. Paulo, quando apresenta a perfeição da plano redentor de Deus e a maneira como Deus a aplica a vida do seu povo, dentre as partes desse processo está a maneira como o Senhor nos declara justos a vista dele (Rm 8:30 ). Estar nessa posição legal perante Deus é o mesmo que dizer que não temos mais dívidas a pagar. O saldo negativo da nossa conta com Deus passou a ser positivo. Sejam dívidas do passado, do presente ou do futuro, não resta nenhum saldo negativo a ser pago e nem um aspecto a ser reparado. Não estamos nem mesmo sujeitos a nenhuma condenação. A Escritura afirma essa grande verdade : “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.”

Deus é o próprio autor desse ato de pura graça e não os homens. Se Aquele que tem todas as prerrogativa e autoridade para julgar e condenar os homens quis justificá-los, quem então irá condená-los? Ninguém. Isso porque, em Cristo, Deus é justo e justificador daqueles que têm fé em Jesus. Em seu Filho bendito, a justiça divina é satisfeita. O Verbo que se fez carne e cumpriu todas as exigências legais. O próprio Cristo, sendo consciente da sua representação vicária diz a João Batista, na ocasião do batismo: “ Convém cumprir toda a justiça”. Jesus não veio rasgar a lei ou anulá-la, mas veio cumprir no lugar de pecadores. Como Ele diz aos discípulos: “eu não vim fazer a minha própria vontade, mas vontade daquele que me enviou”. Todos os aspectos da lei de Deus foram cumpridos pelo mediador perfeito. Não passou um jota ou til. A lei foi satisfeita tanto positiva quanto negativamente. Por essa razão, Deus justifica os pecadores sem passar por cima do seu próprio caráter, sem anular sua própria vontade moral antes ela fora totalmente cumprida e somos justificados tendo em nossas contas, depositada a justiça de Cristo. Temos imputada em nossa vidas sua obediência ativa e passiva. “Já não resta nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus”, afirma a Escritura.

Logo, o que se pode concluir de forma clara pela verdade da justificação somente pela fé em Cristo é que não há nenhum mérito humano, nenhuma jactância por parte dos homens, isso porque o meio pelo qual nos apropriamos da justiça de Cristo é a fé, ou seja, uma confiança plena em Deus. Um descansar total nos méritos de Cristo. Toda a arrogância humana é silenciada, toda boca fechada e toda soberba é anulada. Não há nada no homem que o faça merecer a salvação, nem mesmo há mérito na forma como confiamos em Deus, porque a fé que os eleitos têm é dom de Deus e todos os méritos são de Cristo. A fé verdadeira nos leva a Jesus, que é o único que tem justiça. O único que satisfez a justiça perfeita de Deus.


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