Exposição do Evangelho de João: Rejeitando o eterno para buscar o perecível.

No dia seguinte, a multidão que ficara do outro lado do mar notou que ali não havia senão um pequeno barco e que Jesus não embarcara nele com seus discípulos, tendo estes partido sós. Entretanto, outros barquinhos chegaram de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, tendo o Senhor dado graças. Quando, pois, viu a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, tomaram os barcos e partiram para Cafarnaum à sua procura. E, tendo-o encontrado no outro lado do mar, lhe perguntaram: Mestre, quando chegaste aqui? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo. Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: Que faremos para realizar as obras de Deus? Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.” (Jo 6:22-29).

I – INTRODUÇÃO:

Ao longo de nossa exposição deste evangelho já temos observado a dificuldade natural de os homens compreenderem a mensagem de Cristo. Isso ocorria, e ainda ocorre, devido ao pecado, que habitando no coração, obscurece o entendimento dos homens. Não é que a Palavra de Deus não seja clara, é que na verdade os homens não se dobram a ela preferindo seguir suas ilusões. Tal fato os leva a uma terrível conseqüência que este texto abordará: Os homens acabam por desprezar o eterno e se apegar ao perecível. Eles perdem a percepção do valor das coisas. É como alguém que vende uma jóia de ouro para adquirir uma bijuteria, por acreditar que a bijuteria é que vale uma fortuna. Semelhantemente os homens desprezam a Cristo, o “pão da vida eterna”, para buscarem o “pão da padaria”, como o veremos em nosso estudo.


II – UMA BUSCA COM MOTIVAÇÃO ERRADA (Jo 6:22-26):

Como vimos no estudo anterior, o Senhor havia alimentado milagrosamente a multidão com pães e peixes e posteriormente, já na madrugada do dia seguinte, andou por sobre as águas para socorrer seus discípulos em apuros no mar. Pelo presente texto sabemos que a multidão tinha visto que os discípulos haviam embarcado sem Cristo, e isto no único barco. Eles estavam tão empolgados com o milagre que não foram logo embora, mas passaram a noite por ali mesmo.

Após constatarem que Jesus também não estava por lá, entenderam que o Senhor atravessara o lago, mas não podiam explicar o como. Resolveram, então, ir atrás Dele em Cafarnaum utilizando os barcos que chegaram posteriormente naquela região vindos de Tiberíades. Ao encontrarem-no queriam saber quando e como chegará ali. Toda esta atividade da multidão demonstrava que ela realmente queria estar com Cristo. No entanto, o importante de uma ação é a sua motivação. Por exemplo, pode ocorrer de uma pessoa ajudar um carente e os outros ao verem-na fazer isso dizerem: “Que homem bondoso”. Porém, o desejo secreto desta pessoa seja que todos digam a seu respeito exatamente aquela frase, ou seja: “Que homem bondoso”. Assim ela não é bondosa, mas egoísta, e sua motivação não é altruísta, mas egocêntrica.

À luz destes fatos nós observamos que Nosso Senhor, que conhece o coração dos homens e suas motivações, reprova toda aquela empolgação da multidão. Ele mostra que aquelas pessoas só o buscavam por causa do pão material, e isto porque não haviam entendido o sentido do milagre da multiplicação (6:26), aliás como os próprios discípulos (Mc 6:52). Estas pessoas não haviam compreendido que Cristo era o Pão Espiritual, o Deus encarnado que criara e sustentava todas as coisas. Eles buscavam a Cristo motivados pelo “pão terreno”, pelo, digamos, o “pão da padaria”, e por verem-no como um “libertador político”, um líder que os livraria do Império Romano. Ou seja, toda a perspectiva daqueles homens era materialista e nem um pouco preocupada com suas necessidades espirituais.

Tudo isso deixa-nos informados, como já mostrei na introdução, que os homens dão mais valor a “bijuterias” e desprezam as “jóias de ouro”, dão valor ao que nada vale e desprezam o que vale de fato. O que provoca isto é o pecado que habita no coração dos homens, e os mantêm em densas trevas para que não tenham discernimento do real valor das coisas. Amigos, toda a perspectiva do homem não convertido sofre desta aberração. Vejam como os homens olham a vida, como agem, o que planejam, e o que buscam. Observem em que eles gastam seu tempo, seu corpo, suas emoções, sua intelectualidade, seus dons e talentos. O fato que salta aos olhos, é que tudo isso é voltado para uma busca desesperada pelo que pertence a presente era, é materialista, enquanto que questões que se relacionam com as suas almas eternas nem sequer são mencionadas. E quando esta busca se converte em expressão religiosa torna-se também uma busca que visa o “aqui” e “agora”. A “teologia da prosperidade” é um exemplo atualíssimo desta realidade.

Assim é a falsa religião: É uma busca de alívio emocional, de cura, de riquezas, de bem estar familiar, de libertações de vícios, de proteção contra os males desta vida, e, além disso, como um apêndice, uma “esperançazinha” de entrar o Céu, pois afinal todos morrem. Mas uma busca real pelas riquezas espirituais não existe na falsa religião. Isto é considerado sem valor, pois o que importa são as necessidades desta vida, ou seja, do “pão da padaria”. Foi para isso que aquele povo buscou a Cristo, o que fez com que Ele o denunciasse como um grupo de pessoas que nada entendem. Esta é a grande questão, meus irmãos: a falta de entendimento espiritual. Jesus diz que eles não viram o sinal, ou seja, eles não o compreenderam. Amados, o pecado é algo tão medonho e obscurecedor, que faz com que não enxerguemos as realidades espirituais diante de nós, faz que não percebamos o valor imensurável de Cristo, e o troquemos pelas miseráveis migalhas do “pão da padaria”. Vocês percebem isso? Oh, espero que percebam! Cuidado meu leitor, pois o pecado pode estar te enganando e te levando a buscar o que não tem valor mesmo em tua religiosidade. Cuidado!

III – O CONSELHO DE NOSSO SENHOR (Jo 6:27-29):

A resposta do Senhor diante da busca daquele povo é um conselho que desmarcara a loucura que eles manifestavam. Responda-me: O que vale mais, o que dura cem anos ou o que dura para sempre? A resposta parece óbvia, não é mesmo?! Por isso Jesus diz: Busquem o eterno, trabalhem pelo eterno, e não pelo que perece. Dessa forma, Nosso Senhor mostra a completa tolice da busca daquelas pessoas, e por conseqüência a dita tolice que se manifesta hoje quando os homens manifestam a mesma tendência.

O fato é que é completa loucura esta busca materialista, pecaminosa, pois desprezar o eterno a favor do perecível não pode ser defendido por nenhum argumento verdadeiro, porém é exatamente isso que o homem não convertido faz, ou seja, o homem não convertido nega o óbvio, tratando com desprezo o eterno e se apegando ao perecível. Como é possível buscar o “pão material” e desprezar o “espiritual”? Ora, o que acontece com o “pão material”? Ele é digerido e o que resta são dejetos! O pão perece! E assim é tudo o que faz parte desta era. Vejam: a sua casa vai passar, ou não vai?! E o seu carro? E a suas demais posses? E a sua família? E quanto ao seu corpo? E seus olhos que passam por estas linhas neste exato momento ? A resposta é: Tudo passa, meu amigo, e este fato é algo absolutamente óbvio. Então porque os homens buscam o que passa? Resposta: Porque o pecado os cegou!

Mas há algo eterno. Vejam o que João diz em sua carta:

Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.” (I Jo 2:17).

A concupiscência, ou seja, o desejo do mundo que não vem de Deus, é passageiro, mas a vontade de Deus é eterna. Em nosso texto Nosso senhor mostra que Ele tem o “pão eterno”, Ele dá este pão, pois o Pai o Selou. Aqui Ele chama a si mesmo de “Filho do homem” em uma possível referência a Daniel 7:13,14. Ele é o que vem do Céu, O Deus encarnado, e o Pai o Selou, deu todas as evidências que mostram quem Ele é. Ele foi autenticado pelo Pai! Jesus deixa bem claro que só Ele possui este “pão eterno”. Devemos enfatizar muito este ponto. Não encontraremos este “pão eterno” em nenhum outro lugar ou pessoa. Dessa forma, toda a religião que se propõe a dar esperança de eternidade a parte do Cristo das Escrituras, esta iludindo seus ouvintes, e não passa de mais uma expressão da cegueira do pecado que habita no coração dos homens. Na verdade tal religião apenas alivia temporariamente a consciência dos homens com relação aos seus pecados, e assim os libera para que continuem em suas loucas buscas pelo “pão da padaria”, desprezando o verdadeiro pão, o “pão espiritual” que só Cristo concede!

Diante das palavras de Cristo aquelas pessoas perguntam: “Que faremos para realizar as obras de Deus?” (Jo 6:28). Parece que na mente deles existe uma visão legalista da questão. Notem que eles falam em “fazer”. Queriam saber o que precisavam “fazer” para alcançar o “alimento espiritual”. Queriam alcançar este alimento pelas “obras”, por seu “esforço”. Mas a resposta do Senhor exclui tal concepção, pois devem receber este alimento por “crerem” Naquele que lhes “dá” o alimento (Jo 6:27). Vejam bem: Ele “dá”, é um “dom”, portanto é pela graça de Deus e não pelas obras que estes homens recebem o “alimento espiritual”. No entanto, é preciso crer, é preciso deixar a louca busca pelo “pão da padaria”, e crer Naquele que o Pai enviou, o que veio para dar sua vida por seus eleitos, pagou por seus pecados e os liga ao Pai dando-lhes a verdadeira riqueza: Estar reconciliado com Deus. Este bem jamais passará. Jesus diz que crer Nele é crer no Pai, visto que Este o enviou.

IV – CONCLUSÃO:

O pecado tem feito com que os homens não percebam o real valor das coisas. Dessa forma os homens buscam o alimento perecível e desprezam o eterno. A loucura deste ato está exatamente em procurarem o que é desprezível, devido a ser passageiro, enquanto que o eterno é ignorado. Assim as pessoas buscam o “pão da padaria” que perece, e abandonam o “pão espiritual”, que é eterno. Jesus nos aconselha a que deixemos este equivoco e trabalhemos pelo verdadeiro “pão”, crendo que Ele é o enviado do Pai!

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